DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCISCO GUTERRES LÚ OLO NO DIA NACIONAL DOS VETERANOS

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Díli, Praça da Proclamação da Independência

3 de Março de 2018

 

Irmãos e Irmãs, Povo de Timor-Leste

Irmãos e Irmãs Veteranos

A todos saúdo calorosamente neste Dia Nacional dos Veteranos. É uma grande honra presidir, como Chefe de Estado, às comemorações da Nação em homenagem aos Mártires, Combatentes e Veteranos que lutaram pela Independência da República Democrática de Timor-Leste.

Este ano, assinalamos duas datas de alto significado na nossa história.

Em Novembro, assinalamos o 100º aniversário do nascimento de Monsenhor Martinho da Costa Lopes, Administrador Apostólico para Timor, nos anos 70 e 80.

Em Dezembro – dia 31 de Dezembro de 2018 – passam 40 anos sobre a morte em combate do saudoso Nicolau Lobato, líder inspirador do nacionalismo timorense, da Resistência e membro fundador da RDTL.

No caso de Monsenhor D. Martinho da Costa Lopes, enquanto líder da Igreja Católica no país, ao tomar conhecimento das atrocidades que o povo sofria, teve a coragem de seguir a sua consciência, falar com a resistência e apoiar o povo em luta pela sobrevivência da Nação.

A liderança exemplar e o espírito nacionalista de Nicolau Lobato, assim como a coragem de D. Martinho, promovendo o valor da justiça, são dois exemplos brilhantes para os veteranos e toda a Nação.

Foram valores como estes – de serviço ao povo e ao país – que deram à resistência a superioridade moral e ajudaram o nosso povo a chegar à vitória, à independência e à liberdade.

Este local – onde comemoramos o contributo de todos os Veteranos para a libertação da pátria – chama-se agora Praça da Proclamação da Independência.

Este nome, no local que é a sede e o símbolo do centro do Governo da RDTL, recorda todos nós – os veteranos e as novas gerações – que a Proclamação da Independência em 1975 foi a afirmação decisiva, e clara, no plano nacional e internacional, de que já chegara o tempo dos timorenses tomarem nas próprias mãos as rédeas do seu futuro.

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A vontade soberana do povo demorou, depois, 24 anos a tornar-se realidade. A rivalidade das potências mundiais na época da guerra fria trouxe à nossa terra e ao nosso povo ocupação, sacrifícios enormes e muita dor.

Três meses e pouco depois da Proclamação da Independência, o Comité Central da Fretilin organizou em Soibada, em Março de 1976, uma reunião alargada, incluindo dirigentes militares e quadros médios, representativos de todo o país. O objetivo desta reunião alargada foi fazer o balanço da ocupação militar naquele momento, e decidir sobre o caminho a seguir para manter a resistência ao invasor.

Naquele tempo, irmãos e irmãs, a dura realidade era esta: o Comité Central da Fretilin era a única estrutura e instituição política nacional que ainda existia no país.

Apesar das grandes baixas que todos sofremos nos primeiros meses – e que se agravaram, depois, nos primeiros anos da ocupação – a realidade era essa: o Comité Central e as organizações setoriais e locais da Fretilin eram na altura a única liderança e a única instituição nesta terra amada, devastada pela guerra.

A reunião de Soibada foi a mais alargada possível no país marcado pelas operações militares do ocupante. O exército ocupante tinha armamento poderoso, em comparação com o dos nossos combatentes. A partir de certa altura, as operações militares passaram pelo uso da força aérea contra o povo desarmado, em fuga nas montanhas.

Até ao momento do bombardeamento aéreo sistemático existiam áreas libertadas que protegiam a população. Essas áreas foram destruídas pelas operações de bombardeamento pela força aérea.

A sobrevivência do país, da nossa identidade de timorenses ficaram dependentes da capacidade de iniciativa e da liderança da única estrutura política existente. Se houve instituição que interpretou as aspirações mais sagradas do nosso povo, essa instituição foi a Fretilin.

Em anos seguintes realizaram-se novos encontros nacionais. Realizaram-se também missões clandestinas de reconhecimento no território nacional, para conhecer a situação real e ajustar a resposta da Resistência ao avanço dos ocupantes.

Em 1977 reuniu-se, em Laline, uma segunda reunião alargada do comité central com quadros das zonas libertadas. Em Laline analisou-se a natureza da guerra, quando passavam quase dois anos após a invasão. E o objetivo desta análise era avaliarmos a situação e a capacidade da Nação para se defender e resistir.

Essa segunda reunião alargada do Comité Central chegou a três conclusões chave:

– Estávamos perante uma guerra de todo o povo;

– Tratava-se de uma guerra prolongada; e,

– Para resistir, o país só podía contar com as suas próprias forças.

Em resposta a este diagnóstico, a reunião decidiu em favor da criação de um partido marxista-leninista e de uma escola de quadros.

Uma guerra de todo o povo e uma guerra prolongada significavam que as Falintil – todos os combatentes – tinham de ser capazes de mobilizar o povo. A Resistência só podia manter-se e atuar com o apoio e a proteção do povo.

Os combatentes eram como militantes com armas. E os civis – todo o povo – eram combatentes, embora sem armas.

Alguém resumiu, com muita inteligência essa situação de unidade do povo e da Fretilin dizendo, mais tarde, de uma maneira muito poética e verdadeira:

“Pergunta-se à Fretilin,

Se viu passar a Fretilin;

E a Fretilin responde,

Que não viu a Fretilin”.

O povo todo protegia os combatentes face aos militares ocupantes. A resistência armada sobrevivia através do apoio e da proteção do povo.

De 1977 a 1979, a maior parte da direção da luta foi aniquilada pela chamada ofensiva de cerco e aniquilamento. As zonas libertadas foram destruídas.

Um historiador português que escreveu sobre a história da resistência afirmou que a ocupação em Timor-Leste constitui o maior genocídio registado no Século 20 em percentagem da população do país.

Em 1979, o Comité Central tinha sido quase todo eliminado. Após a morte em combate do saudoso Nicolau Lobato, em 31 de Dezembro de 1978, o comité central da Fretilin ficou reduzido a três membros: os irmãos Xanana, Mahuno e Tchai.

É de justiça referir aqui o nome de duas mulheres, entre as milhares de combatentes corajosas e dedicadas que morreram nesta época. Ambas foram barbaramente torturadas: Rosa Bonaparte “Muki”, a fundadora da OPMT – Organização Popular da Mulher Timor; e Maria Goretti Joaquim, verdadeira “pioneira” da frente clandestina. Não será possível mencionar todos os mártires, todas as baixas que sofremos. Mas vêm-me à memória muitos dirigentes cujas qualidades eram legendárias, reconhecidas por todos, apesar da juventude de todos nós naquela época. Destaco Mau Lear, que sucedeu a Nicolau Lobato como Primeiro Ministro, e Vicente dos Reis “Sahe”, comissário político nacional, que foi sucedido por Xanana, nessas funções.

Irmãos e irmãs veteranos.

A guerra destruiu também a economia da nação. A população sobrevivente estava na maior parte em fuga nas montanhas. Milhares e milhares de pessoas, incluindo milhares de crianças, morreram de fome.

Fotografias de filhos de Timor-Leste em último grau de desnutrição chegaram, naquela altura, à frente externa da Resistência e foram, mais tarde, mostradas nas Nações Unidas e publicadas na imprensa mundial.

Essas fotografias eram a primeira prova que o mundo viu da catástrofe criada pela invasão e ocupação do nosso país, mostrando que as notícias divulgadas pelo regime do presidente Suharto eram falsas.

Apesar da catástrofe, a Resistência nunca desistiu.

Perante o desaparecimento de quase todo o Comité Central, os membros sobreviventes, apoiados por outros quadros, imediatamente começaram a trabalhar na reorganização sob a liderança inspirada do meu irmão Xanana.

Em 10 de junho de 1980, um grupo de combatentes lançou um ataque em Marabia, mostrando às autoridades da ocupação e ao mundo que a Resistência estava ativa, capaz de atacar nos arredores da capital ocupada.

Em 1980, realizaram-se duas conferências preparatórias alargadas – em Iliomar e em Laleno-Luapalo. A situação desumana imposta ao povo levou a Resistência a endurecer as posições ideológicas. As conferências concluíram ser necessário reforçar a estrutura da Fretilin com a criação de um partido de modelo marxista-leninista.

Este é um modelo de funcionamento fortemente centralizado, organizado em células separadas, contráriamente à organização tradicional da Fretilin – Frente ampla, que funcionava com estruturas abertas e mais flexíveis.

Naquele tempo, o modelo de organização leninista pareceu a muitos quadros ser um modelo adequado para proteger a organização contra infiltrados, ao serviço dos militares ocupantes.

Assim, em 1 de março de 1981, teve início uma Conferência Nacional para a reorganização. O Partido Marxista Leninista FRETILIN foi criado a 3 de março.

Os irmãos Xanana e Ma’a Huno participaram nesta Conferência e eram os únicos membros sobreviventes do Comité Central, após a morte em combate do saudoso Tchai. A conferência teve a participação ativa de muitos quadros médios.

A estratégia aprovada provou dar resultados. Logo em 1981, o Administrador Apostólico D. Martinho da Costa Lopes denunciou publicamente a violência dos ocupantes contra a população. Depois, em 1983, D. Martinho da Costa Lopes aceitou encontrar-se com Xanana Gusmão, como líder da resistência. Ainda no mesmo ano, realizaram-se conversações preliminares com chefias militares ocupantes, mostrando a flexibilidade e abertura da Resistência.

A atitude do Administrador Apostólico D. Martinho da Costa Lopes sublinha a enorme estatura moral deste religioso eminente. D. Martinho sentiu-se chocado profundamente nos seus valores cristãos e no seu sentido de Justiça face à brutalidade da ocupação, da qual foi tendo cada vez melhor conhecimento.

Dom Martinho sentiu ser seu dever estar do lado dos oprimidos. A maior parte da Igreja timorense seguiu o seu exemplo, identificou-se com o povo simples, e com a ação da resistência ao serviço do povo.

É importante lembrar como a Resistência soube sempre aprender com os erros e com as lições da história.

O povo venceu devido à sua determinação, à sua coragem e à capacidade de sacrifíco de todos nós – sem dúvida. E o Dia Nacional dos Veteranos é uma homenagem a essa coragem e essa capacidade de sacrifício dos timorenses.

Mas não podemos esquecer e não esquecemos que nós vencemos porque tivemos sempre a humildade, e a coragem, de reconhecer os erros, e aprender lições.

Esta ética da humildade de que a resistência sempre deu provas, é uma importante lição para guiar o presente e o futuro deste país.

A despartidarização das Falintil foi importante para mostrar ao mundo que os combatentes eram a força armada do povo todo. Mas, a Comissao Diretiva da Fretilin manteve-se onde sempre esteve, como componente política da liderança.

Os irmãos saudosos David Alex “Daitula”, Mau Hodu, Sabalae, Nino Konis Santana, o irmão Ma’a Hunu… todos continuámos, eu também continuei, lado a lado com os irmãos Xanana, o Taur, Lere, Falur, Sabika, L7 e L4 entre outros – muitos mais.

Muitos dos que continuram estão aqui mesmo à minha frente nesta Praça da Proclamação da Independência. Muitos outros já nos deixaram, mas as suas famílias estão aqui. O seu sacrifício como mártires e combatentes vive na memória da Nação.

É necessário que o seu exemplo de serviço desinteressado ao país, que o seu sacrifício pela comunidade seja conhecido e transmitido às novas gerações, nascidas após a libertação e a Restauração da Independência.

A Constituição, o Governo e o País reconhecem a contribuição dos combatentes veteranos. Está em fase avançada de preparação a criação do Conselho Nacional dos Veteranos: o conselho é uma estrutura dos próprios veteranos.

Eu apelo para que os veteranos aproveitem este novo Conselho Nacional para ajudar a promover, disseminar e a desenvolver – hoje, que somos independentes – o legado moral e o exemplo de serviço desinteressado ao país.

Os combatentes e veteranos, bem como os nossos mártires, demos todos ao país um serviço empenhado e abnegado, sem esperar recompensas (exceto a prisão, talvez, ou pior).

Agora, devemos todos ajudar a promover aqueles mesmos valores, para levar em frente este país.

Os veteranos são cidadãos da nossa pátria como os outros cidadãos todos, mas devem saber ser fonte de inspiração para o país.

Mas, atenção: o reconhecimento do povo é merecido pelo exemplo de serviço desinteressado para defender e elevar o país! Temos de saber distinguir o que é interesse nacional e o que não é.

É necessário promover os bons exemplos de cidadãos que contribuem para proteger a comunidade e para elevar a nossa identidade e a cultura nacionais.

Faço um apelo, a toda a Nação. Especialmente, ao Ministério da Educação e da Cultura, da Juventude, Defesa e Segurança, às Universidades – enfim, às entidades com responsabilidades especiais face às novas gerações: a todos apelo no sentido de desenvolverem iniciativas e criarem planos de ação para promoverem a participação dos veteranos – e transmitirem às novas gerações os valores de serviço ao povo, de interesse nacional e de empenhamento e sacrificio pessoal.

Foram estes valores que construiram e cimentaram a unidade entre o povo e as Falintil e entre todas as estruturas da Resistência, incluindo a frente clandestina e a frente externa. No caso da Frente Externa, recordo o respeito internacional pelo nome de Timor que foi conquistado pelo rigor e credibilidade da resistência nos ministérios dos Negócios Estrangeiros de muitos países: nos Estados da atual CPLP, no Congresso dos Estados Unidos, no Parlamento Europeu em Bruxelas, na Dieta Japonesa, na República da Coreia e outros.

Foi um trabalho de serviço desinteressado, feito com o coração e sem dinheiro. Tudo isto contribuiu para o êxito feliz – de todas as frentes e do POVO – quando a oportunidade chegou em 1997, 1998 e 1999.

Irmãos e irmãs! Veteranos!

A honestidade, a credibilidade, a seriedade, o espírito de sacrifício dos combatentes também ajudaram a trazer a Nação à vitória.

O respeito por estes valores foi muito importante para ganhar a confiança do povo e chegarmos a Restauração da Independência.

A resistência e o povo lutaram guiados pelo sonho – e a esperança – de construirmos na nossa terra um país melhor, uma comunidade mais feliz, sem pobreza.

Mas ainda não realizámos essas metas. Peço a contribuição dos veteranos para ajudarem as novas gerações a compreender o espírito de serviço á comunidade e de serviço ao país – para avançarmos mais rapidamente no desenvolvimento nacional.

Irmãos e irmãs! Veteranos!

Hoje as nossas tarefas são aprofundar a democracia e consolidar a paz e estabilidade nacionais. Os veteranos devem desempenhar um papel importante para ajudar a assegurar estes objetivos.

Eu sou a favor do desenvolvimento económico e do desenvolvimento empresarial. O desenvolvimento do setor privado exige competência técnica e, exige também valores morais firmes. Sem valores, abrimos a porta à corrupção e à perda da confiança dos cidadãos nas instituições nacionais. Isso seria negar tudo o que a resistência e a determinação do povo trouxeram ao país com a Restauração da Independência.

O desenvolvimento do país precisa da dedicação dos cidadãos, incluindo dos veteranos, precisa de espírito de serviço.

Temos de avançar com urgência nesse caminho de transmitir às novas gerações os valores de um Estado limpo, valores de dedicação ao estudo e ao trabalho, para um futuro melhor.

Apelo à contribuição generosa dos veteranos e todos os cidadãos para este objetivo.

O reconhecimento que a Nação presta aos veteranos, aumenta as responsabilidades dos veteranos perante a Nação.

Honra aos heróis e mártires!

Honra aos combatentes e veteranos da luta de Libertação Nacional!

Honra ao povo! Viva Timor-Leste!

Vivam os Veteranos!