Discurso de Sua Excelência o Presidente da República Na Comemoração do 45.º Aniversário das FALINTIL

by Mídia PR Posted on

É com grande satisfação que me associo a vós neste local para juntos celebrarmos o 45.º aniversário das FALINTIL. A data que assinalamos evoca também todos aqueles que hoje continuam a servir o sonho e os valores que os heróis das FALINTIL nos deixaram como legado.

Caros veteranos, combatentes e convidados.

O Dia das FALINTIL celebra-se este ano sob o tema “Com o espírito das FALINTIL, estou pronto e decidido a servir os interesses do povo e da nação”. Este tema chama-nos particularmente a reafirmar a posição de cada um, incidindo na história da ação das FALINTIL durante a luta pela libertação da Pátria.

Os valores que nos foram transmitidos pelos Heróis das FALINTIL foram os do trabalho honesto para libertar este Povo da miséria. As FALINTIL, como o próprio nome indica, foram criadas para libertar a nossa terra da ocupação estrangeira, com o objetivo político de vencer a luta contra o invasor. É evidente que não foi fácil realizar este sonho, mas concretizou-se graças a um trabalho conjunto com o nosso Povo. É por este motivo que muitas vezes dizíamos que as FALINTIL eram o peixe e o povo a água.

Hoje, o espírito das FALINTIL inspira-nos, dá-nos força e determinação para juntos darmos passos em frente até alcançarmos o desenvolvimento social e o bem-estar para o Povo, reforçando a nossa fé e o amor-próprio, o amor à sociedade e à Nação, tal como os Heróis das FALINTIL o fizeram durante 24 anos para libertar o Povo das mãos do invasor.

A democracia e a liberdade são uma grande conquista do Povo, em particular das FALINTIL. Há 18 anos erguemos e consolidámos o país segundo os princípios do Estado de Direito Democrático e nos termos da Constituição, e edificámos os Órgãos do Estado assentes no princípio da separação de poderes. É este o princípio que tenho seguido e cumprido não obstante a situação política que levantou dúvidas entre alguns políticos relativamente aos Órgãos do Estado, mas que não abalou a confiança dos veteranos, combatentes, jovens e do Povo em geral. É com orgulho que saúdo a maturidade demonstrada hoje pelo Povo Herói de Timor-Leste e pelos veteranos das FALINTIL.

O Estado tem de exercer os seus poderes como entidade pública para proteger e defender os direitos dos cidadãos. Os cidadãos devem estar conscientes de que todos têm direitos, mas também responsabilidades e deveres. A liberdade e a responsabilidade caminham lado a lado. Assim, um cidadão livre é responsável pelo próximo, pelo Povo e pelo Estado. Esta é a única forma de qualquer um de nós poder afirmar que “com o espírito das FALINTIL, estou pronto e decidido a servir os interesses do Povo e da Nação”.

Reitero hoje aqui que desempenharei as minhas funções como Comandante Supremo das Forças Armadas e Presidente da República para o Povo, subordinado apenas à Constituição da RDTL.

Na qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas, quero afirmar também que a alínea d) do artigo 87.º da Constituição da RDTL atribui ao Presidente da República competências na condução, em concertação com o governo, de processos de negociação para a conclusão de acordos internacionais na área da Defesa e Segurança. Através destes acordos estamos a focar as atenções no plano de atividades ligado à “diplomacia de defesa”, com o objetivo de apoiar as forças de defesa e segurança para que possam contribuir efetivamente para a política externa.

Caros veteranos, combatentes e convidados.

 As FALINTIL são o Braço Armado do Povo!

As FALINTIL nasceram numa altura em que havia divisão entre os timorenses devido a divergências políticas, mas rapidamente as FALINTIL perceberam que a sua missão principal era a de garantir a paz ao Povo. Foi assim que as FALINTIL responderam favoravelmente ao apelo lançado pelos líderes da FRETILIN – Nicolau Lobato e Mari Alkatiri, entre outros – e, a 20 de agosto de 1975, desencadearam uma Insurreição Geral Armada para garantir a segurança e, assim, restaurar a paz em 1975.

Foi como braço armado da FRETILIN que as FALINTIL enfrentaram as incursões

militares indonésias junto à nossa fronteira terrestre. Naquela altura, em resposta à agressão do invasor, tentámos enfrentá-lo e travar as suas incursões no nosso território. As nossas mulheres heroínas também se insurgiram contra o inimigo, demonstrando o seu sentido patriótico. Foi em consequência disso que perdemos uma das nossas heroínas, a Maria Tapó, uma mulher que escolheu devotar a sua vida à Pátria. Esta é apenas uma das muitas heroínas.

Antes de a Indonésia lançar uma operação militar de larga escala a 7 de dezembro de 1975, Nicolau Lobato deu provas da sua capacidade de liderança e organização ao descer à cidade de Díli para reunir e organizar a população para que recuasse para o mato.

Relativamente ao período anterior à invasão indonésia, quero recordar outros comandantes das FALINTIL que assumiram um papel importante:  Rogério Lobato, Hermenegildo Alves, Fernando Carmo, Domingos Ribeiro, Espírito Santo, Guido Soares e tantos outros cujo nome não mencionei. A todos e às suas famílias dirijo o meu respeito.

No período entre 1975 e 1978, as FALINTIL lutaram contra a força ocupante numa guerra de posições para defender o nosso território, proteger a população e abrir caminho para o reforço e consolidação do nosso patriotismo. Nesta época difícil, foi nas bases de apoio que consolidámos a nossa unidade e consciência nacionalista para travarmos uma longa luta.

A Indonésia, sob a liderança de Soeharto, recebeu equipamento militar novo e mudou a sua estratégia de ocupação do nosso país. Começou por ocupar pontos-chave – Díli, Baucau e Lospalos – seguindo uma estratégia de “guerra de decisão rápida”. O objetivo era o de vencer a luta em 24 horas! Durante este período, e devido a vários fatores, inclusive o fator militar ou a correlação entre as duas forças concorrentes, a direção luta – a FRETILIN – de forma intrépida optou por uma estratégia de “guerra dura e prolongada” assente nas nossas próprias forças. Em segundo lugar, o inimigo apostou na retaliação, a que se seguiu a campanha de cerco de aniquilamento através de bombardeamentos a partir de navios e aviões e ataques com bombas de napalm que acabaram por desmantelar as nossas bases de apoio. Esta estratégia trouxe a fome e a debilidade da população. Nicolau Lobato morreu em combate, a 31 de dezembro de 1978. Mas o espírito das FALINTIL permaneceu vivo.

Em março de 1981, durante a conferência em Maubai, na qual participaram dois membros sobreviventes do Comité Central da FRETILIN, Xanana Gusmão e Ma’ Hunu Bulerek Karataianu, as FALINTIL conceberam uma nova estratégia adotando uma tática de guerrilha móvel sob a liderança de Xanana Gusmão como Comandante das FALINTIL e Comissário Político Nacional da FRETILIN.

Em setembro de 1981, a Indonésia lançou uma megaoperação intitulada “Kikis” que levou à morte dos nossos quadros políticos e militares importantes, nomeadamente Holi Natcha, Nelo Kadomi Timur, Saki Nere Ulas Timur e Hari Nere.

A operação “Kikis” foi extremamente violenta. Por isso, a 13 de outubro de 1981 durante uma missa campal em Lecidere, Díli, o Administrador Apostólico Dom Martinho da Costa Lopes, imbuído do espírito de Cristo, de coragem em punho e coerência, denunciou esta violenta ofensiva.

A vontade de encontrar uma solução pacífica para o conflito na nossa terra surgiu logo em 1983, quando, graças à eficácia da estratégia da FRETILIN e das FALINTIL, o Comandante Xanana Gusmão e o Comandante Purwanto reuniram em Ossú, Lariguto, e acordaram um cessar-fogo.

A missão que as FALINTIL assumiram, de defender a Pátria, esteve intimamente ligada ao sentimento de Povo de querer ser livre e soberano. Foi por este sentimento do Povo que os Heróis das FALINTIL se dedicaram inteiramente à luta e muitos perderam a vida. Os Heróis da FALINTIL serviram assim de guia que inspirou o Povo a resistir até ser alcançada a Independência.

Quando as forças indonésias capturaram o Comandante Xanana Gusmão, Ma’ Huno assumiu de imediato a liderança das FALINTIL. Com a captura do Comandante Ma’ Huno e a morte do seu sucessor Nino Konis Santana, as FALINTIL passaram a ser lideradas pelo Comandante Taur Matan Ruak.

A história das FALINTIL é de resiliência e capacidade de se reerguer perante as dificuldades. Daí serem conhecidas como as “Gloriosíssimas FALINTIL”.

Foi também graças ao sacrifício das gloriosas FALINTIL e do Povo que colhemos os frutos a 30 de agosto de 1999 com o referendo organizado sob a égide das Nações Unidas – ONU. Isto é prova de que a Vitória da Libertação Nacional foi conquistada à custa da vida de muitas pessoas.

Caros veteranos, combatentes e convidados,

A humanidade enfrenta atualmente uma pandemia de COVID-19. Assim, também como membro da Frente Armada que participou no processo da luta, peço aos veteranos e combatentes que continuem a servir de guia da comunidade à qual pertencem, apoiando-se mutuamente, especialmente perante a pandemia que enfrentamos, provocada por uma doença terrível que acometeu o nosso Povo, com todas as suas consequências.

Militares das F-FDTL

Oficiais, Sargentos e Praças

As Forças de Defesa de Timor-Leste, como instituição continuadora das FALINTIL e liderada atualmente por guerrilheiros heróicos das FALINTIL –Lere Anan Timur, Falur Rate Laek, Sabika Besi Kulit, Aluc Descartes e Mau-Nana, entre outros – têm o dever de conhecer a história e manter vivos os valores das FALINTIL, como o sacrifício, princípio já firmado, e a capacidade de resistir, mesmo sem meios. As F-FDTL devem preservar estes valores e adaptá-los às missões que são agora outras, transformando-os à medida da conjuntura atual, nomeadamente na capacidade de prestar auxílio ao Povo em situação de desastre natural e no domínio das novas tecnologias.

A pandemia da COVID-19 pôs em causa a Segurança Nacional, o que prova que hoje a defesa da soberania não passa apenas pelas armas. O conhecimento é um fator importante e fundamental para as forças das F-FDTL que devem procurar aprender para se tornarem uma barreira coesa para o Povo, segundo os princípios e valores dos Heróis das FALINTIL, nomeadamente o Sacrifício, a Lealdade, a Disciplina, a Obediência, a Honestidade, o Nacionalismo e o Patriotismo. O conhecimento assimilado, a elevada capacidade moral e a relação sólida com o Povo vão prestigiar e eternizar o bom nome das F-FDTL.

Caros veteranos, combatentes e convidados.

O Estado tem o dever de valorizar os Veteranos!

Nos termos do artigo 11.º da nossa Constituição, a “República Democrática de Timor-Leste reconhece e valoriza a resistência secular do Povo Maubere contra a dominação estrangeira e o contributo de todos os que lutaram pela independência nacional”.  Foi baseado nesta premissa que no ano passado condecorei, em nome do Estado, 99 guerrilheiros das FALINTIL que dedicaram a vida à luta pela libertação durante 24 anos consecutivos. Destes heróis, alguns tombaram no campo de batalha e os que ainda estão vivos já têm uma certa idade. Alguns vivem em situações de miséria e doença. O Estado deve, por isso, procurar cuidar destes cidadãos para que possam viver com dignidade. Não podemos esperar o dia de amanhã para aliviar o peso que carregam até hoje, no nosso Timor-Leste livre e independente!

O governo aloca anualmente verbas para os veteranos e combatentes no valor de mais de 85 milhões de dólares americanos.  Podemos desenvolver agora alternativas para fazer este dinheiro render e sustentar as famílias dos veteranos e dos combatentes no futuro.

Por outro lado, a política do VIII Governo de homenagear todos aqueles que tombaram em território nacional, erguendo monumentos em cada posto administrativo, tem de ter também em consideração o nosso valor cultural. E o mais importante é a partilha de informação com os veteranos e combatentes para que não subsistam dúvidas entre os seus familiares e na nossa sociedade.

Estou convicto de que este governo vai focar as atenções no apoio continuado aos combatentes.

Veteranos

Membros do Conselho de Combatentes da Libertação Nacional

Aproveito a oportunidade para apelar ao Conselho dos Combatentes da Libertação Nacional, especialmente criado para defender os interesses dos combatentes, para que identifique e procure soluções para a verificação dos dados pendentes, inclusive a questão da falsificação de dados. É através destes meios que podemos honrar verdadeiramente os Heróis da Pátria. Apenas reconhecendo primeiro os veteranos os poderemos depois valorizar! O importante é atuar em concertação com o Ministério para os Assuntos dos Combatentes da Libertação Nacional.

Caros veteranos, combatentes e convidados.

É tempo de preservamos a história verdadeira para as próximas gerações!

A história verdadeira constitui a raiz e um valor consolidado para as gerações vindouras. Assim, continuo a pedir ao governo que colabore e reúna os dados dos combatentes, das organizações da resistências e de todas as pessoas, de modo a apoiar o trabalho das diversas organizações, como o Comité Orientador 25, a Comissão de Pesquisa e Elaboração da História da Luta da Mulher Timorense, o Centro Audiovisual Max Stahl, o Centro Nacional CHEGA, e o Arquivo e Museu da Resistência, entre outros, de registar e escrever a história do papel das organizações da resistência ou das organizações juvenis no processo da luta pela libertação nacional.

 Aos veteranos e combatentes que ainda estão entre nós apelo para que continuem a contar a sua história aos seus filhos, aos seus familiares e ao Povo em geral, de forma a ser transmitida às gerações futuras.

A história baseada em factos confere valor ao sacrifício dos Heróis por uma Pátria que cultiva o patriotismo e o nacionalismo para as gerações vindouras, para que mantenham vivos os valores da solidariedade, espírito de sacrifício, criatividade e dedicação ao Povo e à Nação.

 

Aos jovens apelo para que procurem aprender e seguir o exemplo demonstrado pelos Heróis das FALINTIL durante 24 anos. As FALINTIL sacrificaram-se pela Pátria e agora, jovens, é tempo de dar continuidade ao sacrifício dos Heróis das FALINTIL, dedicando-vos aos estudos de forma afincada e diligente e ajudando o próximo, para desenvolvermos a nossa terra amada de Timor-Leste. Pois vós, jovens, sereis os novos Heróis do desenvolvimento.

Assim, estou convicto de que é a história verdadeira que as próximas gerações terão orgulho em contar e vão continuar a escrever a OURO a história das Gloriosas  FALINTIL.

Militares das F-FDTL

Oficiais, Sargentos e Praças

Na qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas dirijo-vos uma mensagem especial como instituição continuadora das FALINTIL: que continueis a manter vivas estas obras e as transformeis em ações concretas na vossa vida militar. Vós sois os continuadores diretos das FALINTIL!

Estejam à altura da sua obra e da sua ação!

Viva as Gloriosíssimas FALINTIL!

Viva Timor-Leste!

Obrigado.